segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sobre ciscos e Traves

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1não julgueis, para que não sejais julgados.

2Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.

3Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?

4Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?

5Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

6Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem. (Mateus 7)

No vídeo “Was Jesus Funny”, do Pr Mark Driscoll (para assistir clique na imagem), essa passagem é tida como um momento representante do bom humor de Jesus. Já pensou alguém com uma Trave alarmante no olho falar de alguém que está com um palito de dentes na boca? Pode ser hilário, mas também é mais do que isso.

Com o propósito de diminuir nossos erros e defeitos, passamos a apontálos nos outros; dizemos que “eles são isso”, que “você é aquilo” e mudamos o foco da visão para o diferente. Jesus então nos orienta a nos percebermos, a nos conhecermos, olhando melhor para nós mesmos, o que nos “capacitaria” para, então, olhar para o cisco do outro. Mas será que o ensinamento de Jesus foi para que somente os puros pudessem falar do "mal" alheio? Seria nescessário estar puro moralmente para poder falar do outro, então?

Não é o fato de eu estar limpo moralmente que me capacita ou me autoriza a falar de um comportamento do outro. A gente sabe que qualquer hábito, mesmo o pecaminoso, é importante na vida das pessoas, estruturante da personalidade. Por exemplo: a atividade de uma prostituta é estruturante na vida dela, sem essa atividade essa vida demorona e falece; seria como tirar de repente a viga que sustenta a casa. É necessário cuidado, é importante paciência, é preciso ter a empatia, é fundamental o amor.

Fundamental na transformção é sentir a dor do outro, ouvir o que ele sente.

Tire primeiro a trave do seu olho. Veja como é difícil. Sinta a dor. Conheça o processo e isso vai te permitir auxiliar na cura do teu próximo. Não foi assim com Jesus? Acaso Ele não veio para nos ensinar a viver, vivendo? Sentiu nossas dores, sofreu nossas tentações, passou fome, sede, solidão e venceu. Mas o que aconteceu com Ele não o tornou somente um mestre moral. Ele foi Deus também e como Deus conheceu nossas dores para então se relacionar mais de perto.

Tirar a trave não diz respeito somente a ser puro, do contrário, “aquele que está sem pecados atire a primeira pedra”, disse Jesus. Diz respeito, antes, a amar e acolher em si a dor do outro. Sentir (n)a dor do outro.

Quando estaríamos aptos a ajudar nossos amigos a crescer? Nunca! Por que nunca estariamos puros. No entanto, o fato de eu ter passado por uma experiência de cura me permite dialogar e auxiliar nesse processo não como alguém que olha de cima, mais santo ou mais puro, mas de igual para igual, porque ambos conhecem a experiência da dor.

Que traves tiramos? Que curas passamos? Que Julgamentos temos? No que poderemos auxiliar na transformação das pessoas?

Ao falar dos erros alheios não nos esqueçamos da dor que é passar por uma dificuldade e do quanto é doloroso arrancar as flechas do peito.

Sintamos a dor, como quem a viu (vê) de perto.

Lembremos do exemplo de Jesus. Isso se chama empatia, que se dá a partir do encontro com a nossa humanidade e se abre para humanidade do outro.

Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhose colocá-los-ei no lugar dos meus;
E arrancarei meus olhos
para colocá-los no lugar dos teus;
Então ver-te-ei com os teus olhos
E tu ver-me-ás com os meus.

     Trecho do Poema "O Encontro", de Levy Jacob Moreno, Psicodramatísta.

 

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terça-feira, 21 de julho de 2009

Eu também tenho um sonho!


"Eu tenho um sonho!"
Essa frase tem atravessado as gerações depois que Martin Luther King proferiu discurso para mais de 200 mil pessoas e para o mundo, em 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C. Era a Marcha de Washington por Empregos e Liberdade. Foi, sem sombra de dúvidas, um momento chave na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis.

Alguns dias atrás fui surpreendido com uma declaração ao meu respeito do tipo que falta chão nos pés. Foi um daqueles golpes que deixa o sujeito atordoado.
A minha primeira reação foi querer me fechar na minha Fortaleza e só baixar a ponte levadiça quando me sentisse seguro para dar uma resposta a altura.
Ainda bem que fiquei senhor das palavras que não disse. Pior seria ficar escravo delas e, assim, jogar uma pá de cal no sonho que tenho de fazer diferença na minha geração.
E numa mensagem que recebi, e que compartilho com vocês a seguir, vi mais do que um desabafo desaforado: vi a oportunidade de compartilhar o mundo que acredito ser capaz de construir junto com outras pessoas e com os meus amigos, assim com Martin Luther King compartilhou o seu sonho com sua geração. Eu também tenho um sonho!

"Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas ? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque ? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele !"

Abração!

Wendel Cavalcante

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Multiplicação de Oportunidades

 

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O povo estava com fome. Vinha seguindo Jesus desde algum tempo e ficava na espera. Andando com Jesus qualquer coisa podia acontecer. O homem já tinha transformado água em vinho, curado muitas pessoas, andado sobre as águas. O que Ele faria nessa próxima vez? Multiplicaria pães, peixes e oportunidades.

Sempre olhei para o momento da multiplicação dos pães com o olhar da multidão: olhos de quem quer ver o milagre, olhos de quem espera acontecer, de quem vê a vida passar, de quem se vê na comodidade de ser menor, de ser dependente. Quem tem sede de resultados e respostas, olha para os pães e peixes multiplicados. Quem tem sede de vida, de autonomia, de Deus, olha para Jesus e para o que Ele fez no momento dessa multiplicação de pães e peixes.

Ele olha para multidão e vê um povo que pede ajuda, um povo que depende dEle. É desse jeito dependente que aprendemos a viver com Deus. O que falta existe nEle; o que precisamos, encontramos nele, e partir daí é que estabelecemos a nossa relação com Ele.

Deus, porém, em Jesus, ensinou-me algo mais. Ele fez uma pergunta. E quem pergunta, abre-se para respostas; quem pergunta permite o complemento de outrem.

Ao perguntar, Deus permite que seus discípulos sejam colaboradores dEle: “o que faremos para alimentar a multidão?”.

Essa pergunta vinda de uma pessoa qualquer traz poucas mudanças, mas vinda de Deus, muda tudo. O homem é recriado a cada pergunta, a cada oportunidade e é assim que o mundo é regenerado. Deus quer ver o homem respondendo, tornando-se responsável (hábil para responder) e não mero dependente.

A pergunta de Jesus abre oportunidades e nos ensina a seguir a diante para onde Ele aponta. Ele diz: “ o que podemos fazer?” E algumas respostas surgem: “despede as multidões”, “nem muito dinheiro seria capaz de comprar pão suficiente para essa multidão”, “temos só uma criança com 5 pães e 2 peixes”.

As respostas são simples, mas muito mais do que ouvir soluções certas, Deus queria poder contar com o homem e se juntar a ele na (re)criação da vida. “Passa pra cá esse pães e os peixes”. "Façam pelo menos o possível e contem com a minha ajuda quando precisarem!"

O trabalho de Deus não é egocêntrico. É trabalho que gera autonomia e não dependência, não gera espera, mas proatividade. Quando curava dizia “não digam por aí que fui eu”, quando perdoava dizia “Vai… (e não peques mais)”. Lembro agora de uma história do missionário Pedro do Borel, quando esteve na Betesda Sede (2005), ele dizia:

“pedi a Jesus para ir a Jerusalém e andar por onde Ele andou, mas Ele me disse que era Ele quem queria ter a honra de andar por onde eu andasse.”

A história do missionário tem tudo a ver com a frase de Jesus “quem crê em mim, obras maiores fára”. O Salvador nos diz que continuaríamos a caminhada, que seus seguidores não deveriam fazer somente o que  Ele fez a 2 milênios atrás, mas fazer novas coisas, criar!

A pergunta de Jesus em meio a necessidade do povo de sua época abre espaços para que seus discípulos pudessem colaborar com Ele na (re)criação.

Nosso mundo ainda precisa de ajuda!

Deus nos faz algumas perguntas (quais?) e abre-se para que possamos criar um novo mundo ao seu lado. Ficar sem responder é estagnar-se no tempo de adão, é não recriar e não se renovar.

Nossas respostas podem não ser suficientes, mas são válidas e fundamentais.

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